Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

A morte e a enfermagem

 

 

 

 

 

 

Na antiguidade clássica, o coração era considerado o órgão nobre essencial à vida, o primeiro a viver e o último a morrer, logo a vida e a morte andavam lado a lado no quotidiano. À medida que se avança pelas diversas etapas do ciclo vital, aproximamo-nos do incontornável destino que é a morte. Desde os primórdios  até meados do século XX morria-se na comunidade, juntamente com os amigos e família, e onde os profissionais de saúde tinham um papel muito restrito, apenas confirmavam a morte, cabendo assim aos religiosos apoiar a família.

A morte é uma realidade complexa em que confluem sentimentos, atitudes e reacções numa amálgama em que as representações de cada um são determinantes e em que, frequentemente, as emoções se sobrepõem à razão. Assim, a morte de um indivíduo é, para os seus significativos, o início de um doloroso e complicado processo de adaptação. Segundo Jardim (2006, p.199) “Compreender o sentido do luto é um sentido que dá sentido à vida daqueles que permanecem vivos.” O luto é assim definido como sendo um processo de transição, em que a pessoa tem que se adaptar à perda e a todas as alterações que esta implica. Por isso, a comunicação da perda é sempre um momento de grande tensão, pois esta arrasta consigo uma mudança drástica e negativa na vida das pessoas e na prespectiva do futuro. A comunicação dete tipo de noticia em saúde constitui um dos momentos mais dificeis nas relações interpessoais com a familia e profissionais de saúde, causando grande desconforto tanto á pessoa que recebe como áquela que transmite a noticia. Os próprios profissionais podem manifestar dificuldades pessoais de adaptação ao processo de morrer incapacitando-os de atender doentes numa situação difícil de doença avançada. Este tipo de dificuldades sentidas têm de ser reconhecidas numa tentativa de resolução num contexto solidário de uma equipa,  pois tal com afirma Cerqueira (2005), ), “a morte é inevitável em determinado momento da vida, este é sentido pelos profissionais de saúde como um fracasso dos seus esforços predominantemente centrados na cura.” Como tal, os profissionais de saúde não conseguem ficar indiferentes ao sofrimento das outras pessoas, por isso o sentimento adjacente será sempre acompanhar e ajudar as pessoas a lidar com a perda, que é definida por Bolander  (1998 ,p.1852) “(...) como a retirada ou a ausência de um objecto ou sujeito importantes na vida de um individuo.” Um individuo é um ser individual, tendo por isso a sua maneira própria de enfrentar as situações, e segundo Twycross (2001) “O luto afecta tanto os sentimentos como o comportamento. As reacções variam [...]”. Deste modo, o acto de informar deve ser individualizado e os conteúdos devem ser adaptados a cada situação, de modo a respeitar o ritmo e as necessidades do doente/família, cabendo aos diversos profissionais da área da saúde e não só (médicos, enfermeiros, psicólogos,assistentes sociais, entre outros) estarem atentos aos diversos sintomas que a pessoa enlutada apresenta, actuar na altura certa, de forma a auxiliar o indivíduo a ultrapassar este difícil momento. São vários os factores que podem interferir na  reacção da familia face á morte da pessoa, nomeadamente as relações existentes entre doente/família. Perante estes factores a resolução do processo de luto percorre os seguintes estadios: Entorpecimento, que inclui o choque e a negação; a desorganização, onde são evidentes a exteriorização das emoções, a  depressão, os sintomas fisicos de sofrimento, o medo, a ansiedade e todos os sentimentos associados. Esta  surge associada ás tarefas subsequentes ao luto e onde existe a descoberta de um sentido para a perda. Posteriormente como último estadio do processo de luto, encontra-se a recuperação e aceitação onde existe o olhar para o futuro e não  concentrar-se num passado, ajustando-se à realidade da perda tentando  assim desenvolver uma atitude positiva.

O enfermeiro, como pessoa que é e por ser o profissional de saúde que passa mais tempo em contacto com o doente, partilha uma variedade de sentimentos acerca do sofrimento e da morte, pelo que necessita de estar preparado para compreender e cuidar dos doentes na sua globalidade. Para que o fenómeno da morte seja encarado com serenidade pelo enfermeiro, este deve prevê-la como inevitável. Assim deve ter como atitudes: comunicar a situação terminal do doente, conforme a vontade e capacidade de aceitação do doente; ter respeito pela diferença, cada doente tem o seu modo de estar na vida; o doente raramente está isolado, os familiares podem ajudar ou perturbar; compartilhar, deixar a pessoa expressar os seus temores e desejos; diminuir a dor, o sofrimento e a angustia; auxiliar correctamente o doente a assumir a morte como experiência que só ele pode viver; toda a equipa deve ter um comportamento idêntico, linguagem, em relação a informação dada ao doente para não existir contradições; promover a vivência da fase final de vida no domicilio sempre que possível.

O enfermeiro presta os primeiros ao cadáver. Neste sentido deve ter especial atenção a determinados pormenores, nomeadamente retirar todos os tubos, cateteres, drenos que possam estar colocados no corpo; fechar os olhos da pessoa e colocar a dentadura, no caso de possuir e o corpo deve ser colocado numa cama limpa, numa posição supina onde os braços se encontram ao longo do corpo ou cruzados sobre este.

Existem alguns objectivos que o enfermeiro deve ter em conta no momento do apoio no luto, nomeadamente prevenir as reacções de luto complicado; reduzir a vulnerabilidade emocional; clarificar a normalidade das manifestações de luto; facilitar ajuda prática (como aconselhamento com burocracia); ajudar nos reajustamentos face à perda; potenciar elementos adaptativos que a pessoa possui; promover a expressão de emoções e sentimentos e auxiliar no reconhecimento da natureza das dimensões da perda. Neste sentido a intervenção terapêutica deve ser objectiva para permitir a evolução do luto. Para isso é necessário efectuar alguns passos, nomeadamente oferecer ajuda profissionalizada e direccionada ás pessoas para os recursos e suportes sociais existentes; dar espaço e tempo à família, permitindo a expressão de sentimentos de perda ajudando a pessoa a aceitar o luto como doloroso e aceitar a realidade da perda. Ajudar a família a adaptar-se a viver sem a pessoa que perdeu e direccionar energia a novas relações, ajudando a reconhecerem os seus próprios limites; respeitar os rituais e crenças que a família propõe em beneficio da pessoa falecida; incentivar a pessoa a estruturar dinâmicas de vida diário, como por exemplo cuidar da casa; recomendar a não precipitação de tomadas de decisões aquando sentimentos reprimidos; ajudar sobre o significado da vida.

É importante referir que os cuidados são complexos, exigentes e por vezes stressante, pois envolvem a gestão de aspectos emocionais do doente/família e do próprio enfermeiro. Ao falar da morte falamos da nossa morte, da morte do outro, da dor que é perder qualquer coisa que foi nossa e que deu significado à existência.  Destaca-se o facto de o tema ser bastante abrangente, sendo por isso difícil, resumir toda a informação, havendo no entanto uma aquisição de novos conhecimentos/ competências , pois começamos a morrer no momento em que nascemos, e o fim é o desfecho do início.

 


publicado por alunosenfermagem às 20:29
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1 comentário:
De alan a 11 de Novembro de 2009 às 15:07
Boa tarde!

sobre morte e enfermagem.

muito legal, mas poderia melhorar mudar cor da fonte , e fundo do texto.
abçsss...


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